O que é, afinal, um conservador?
É alguém que defende princípios e valores universais que antecedem cartilhas e preferências partidárias

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Ser conservador não é para moleques - Pedro Henrique Alves

O que é “ser um conservador”? Este talvez seja um dos principais temas de debate entre os teóricos conservadores. Definir uma disposição é, por si mesmo, uma contradição; e por isso mesmo que sublinhar com certezas máximas o que é ser um conservador se tornou um problema teórico gigantesco. A disposição de conservar princípios e valores antecede qualquer definição ideológica moderna; e não precisa de nenhum atributo prévio que não seja o anseio em conservar institutos e instituições basilares. Por isso mesmo que, ser de direita ou de esquerda, para um conservador, só faz sentido quando o que se busca definir é a posição econômica no espectro retórico; todavia, politicamente dizendo, tal variação de direita e esquerda é falha e tende a facilmente cair em erros bobos.

Em suma, você não precisa conhecer ideologia alguma para entender que o aborto é um assassinato e que a liberdade individual é um valor a ser resguardado numa civilização ordeira. Independentemente de suas escolhas políticas individuais, tais inferências são verdadeiras e factuais por si mesmas; é isso o que defende um conservador: princípios e valores universais que antecedem cartilhas e preferências partidárias.

Por isto mesmo, qualquer definição com balizamento do “ser conservador” se revela, a priori, basbaque. No entanto, como a própria tradição filosófica ocidental nos informa: a mínima definição conceitual é o princípio de qualquer conhecimento mais ou menos organizado. Por isso mesmo que determinar o conservadorismo, sem, todavia, fechá-lo num sistema ideológico dogmático, é a própria aporia do conservadorismo moderno, o seu desafio maior. É preciso definir uma silhueta do que é ser conservador, no entanto, sem determinar o seu porvir.

Na minha opinião, isso é completamente possível caso nos desponhamos a gastar umas boas porções de neurônios e raciocínios nessa causa; ora, tal silhueta do conservadorismo é perfeitamente reconhecível através da defesa dos valores centrais da civilização e através da postura tomada frente aos avanços históricos. Ou seja, reconhecemos um conservador pelo o que ele defende e através de suas posturas sociais.

O “ser um conservador” gera uma coluna elementar de defesas reativas de princípios e instituições. O conservador é, por natureza, um defensor das coisas que foram boas os suficientes para garantir que as coisas necessárias de nosso tempo subsistissem. Até mesmo pessoas relacionadas a pensamentos políticos de cunho revolucionário podem ser, intimamente, conservadoras. Lembro-me de um professor totalmente comunista em sala de aula, mas completamente conservador com a família em sua casa.

Tal característica de disposição ao conservadorismo acaba democratizando o ser conservador, relacionando-o a posturas e não a aceitações religiosas de estatutos e cartilhas partidárias. Todavia, não é qualquer um que se diz conservador que realmente o é. Não é fácil defender princípios em uma era no qual a matéria se sobrepõe a qualquer tipo de valor que não seja tangível e imediato. Se opor a multidões de cientificidades, pragmatismos midiáticos e teorias academicistas, tendo em posse apenas costumes centenários e moralidades largamente consideradas antiquadas, é uma postura que possui, no mínimo culhão e coragem.

O conservador entende que o tempero entre pragmatismo e tradição sempre levou a humanidade a progredir sem agredir a natural cadência civilizacional. O conservador entende que reformar é o único método eficaz de implementação de inovações, isto é: resguardar o que ainda funciona e descartar o que não mais serve, sem, no entanto, destruir todo o edifício. Para nós, é muito possível avançar sem destruir; renovar sem apagar o passado; dar à luz a netos, sem assassinar os avós.

Quando um conservador se levanta para defender a família tradicional, não o faz com o espírito de tirano, não defende a família com a intenção de atacar grupos, mas sim para resguardar uma instituição milenar que forjou ― a duríssimas penas ― quase todos os princípios e preceitos que nos guiaram para uma sociabilidade geradora de civilizações. Desta maneira, quando atacar a “família patriarcal e opressora” se tornou moda, o status quo moderno, foi preciso muito culhão e certo grau de heroísmo para se erguer numa praça ou numa sala de aula a fim de defender uma instituição tão malquista quanto antiga.

Quando o aborto se tornou “um direito feminino” inconteste, foi preciso muita coragem para ser uma garota conservadora que se opôs a tal suposta “garantia” de sua casta. Quando o ato de matar bebês foi romantizado e ganhou ares de benefício, se opor a isso se tornou uma atitude totalmente antiquada, quando não, criminosa. Nos tempos em que defender a vida de um feto humano virou atitude fascista, e matar um bebê no útero materno, um direito, clamar pela razoabilidade e pelo óbvio se torna bravura memorável. Quando o mundo se adapta à loucura, qualquer demonstração de sanidade se torna opressão.

Seguir a correnteza não demanda esforço, dar braçadas contra a força das águas homogêneas, isso sim é difícil. Não há glória em se juntar às massas que reafirmam e endossam suas aspirações; levantar o dedo na sala de aula a fim de contestar a tese corrente, isso sim demanda coragem. Ser resistência numa realidade que adota suas crenças como regra, não é resistência, é rezar a reza de sempre, é manter o que já é, é demagogia, teatro.

O conservador, de tempos em tempos, surge na história para relembrar a sua geração que o futuro depende diretamente daquilo que guardamos do passado, que há valores que não trazem em si mesmos datas de validade, que assim como há 3 mil anos era uma barbaridade repulsiva matar bebês nos úteros maternos, ainda hoje o é. Que apesar de ser tentador calar aqueles que discordam de nós, amanhã podemos ser o nós os emudecidos, e caso não defendamos abertamente a liberdade individual de expressão e pensamento de cada um, uma hora a tirania também nos alcançará.

O conservador é aquele que lembra a todos que o já tentado tem sua dignidade interna, que o novo, dirigido por afobados revolucionários, inevitavelmente resultará em velhos erros. O conservador atua como um necromante que fala em nome dos mortos em favor dos vivos, é o mensageiro dos anônimos dos gulags russos, é o carteiro dos campos de concentração alemães, é o porta-voz do tempo e de sua sabedoria.

É preciso ser mais que um moleque para enfrentar as doces e românticas novidades revolucionárias; é preciso ser muito homem para ser portador de obviedades quando o mundo quer sandices teóricas; é preciso ser extremamente valoroso para defender o feto que ninguém quer, contra a multidão que quer matá-lo; é preciso ser muito audacioso para apontar o dedo na cara de tiranos em nome da liberdade de desconhecidos; é preciso ser valente para ser a favor de um projeto econômico que não prioriza populismos e nem filantropias com dinheiros de terceiros; é preciso muita audácia para querer uma família quando o mundo quer sufocá-la, quando ela se tornou sinônimo de atraso e malefício social; é preciso ser tenaz para defender o Criador num mundo onde cada um constrói seu próprio trono e pede adorações em suas redes sociais.

Moleques não podem ser conservadores, é preciso brio, sabedoria e coragem para conservar valores onde todos querem destruí-los e trocá-los por suas próprias bugigangas filosóficas e mundinhos perfeitos.


Não que eu seja um admirador desse sujeito, 
porém há momentos que não tem como não dar razão a ele


Sócrates, enviado para 2020 em um vórtice temporal, cai em São Paulo, no meio de um manifesto e encontra um militante esquerdista:
– Olá excelente rapaz!  Do que se trata toda essa gente reunida?!
– Olha velhote desinformado, estamos lutando contra a elite por justiça!
– Sim, eu realmente sou um desinformado, eu sou quem não sabe, mas estou muito feliz de encontrar você, que realmente sabe! Peço que me ensine, é possível?
– Sim claro, sou da USP, tem muita coisa que você precisa aprender!
– É um grande dia excelente rapaz! Finalmente encontrei alguém sábio que me ensinará! … Primeiro gostaria de saber o que é a elite, depois o que é justiça e por último qual a aplicação de justiça estão lutando, pode ser nessa ordem?
– Sim, isso é fácil!
– Perfeito! O que é a elite!?
– A elite são os ricos, que tem muito dinheiro, muitos bens.
– Então o critério para discernir a elite, é a quantidade de dinheiro, de bens que possui, certo?
– Sim, é esse mesmo!
– E a partir de que ponto um homem é considerado rico, participante da elite?
– A classificação disso é através classes sociais, que são A, B, C, D, E e F! A classe A é quem tem mais, e vai diminuindo para quem tem menos, até a classe F, que é praticamente miserável e não tem nada, é por eles que lutamos!
– Certo, como eu posso identificar quem é a elite nesses termos?
– São as classes A, B e C, mas é só ver quem ganha mais de R$2.300 por mês, que já é elite!
– Entendi, e os outros todos não são elite, certo?
– Sim, o critério é esse.
– Quem ganha mais de R$2.300 por mês é a elite, e a elite é malvada, certo?
– Certo!
– E quem ganha menos de R$2.300 por mês não é da elite, e não é malvado, correto também?
– Sim, é exatamente isso! O senhor está aprendendo muito bem, qual seu nome?!
– Meu nome é Sócrates excelente rapaz!
– Certo, Sócrates! Está aprendendo muito bem.
– Você, é formado em uma universidade, não é isso?
– Sim! Sou inclusive professor! Da USP como eu disse!
– Que dia maravilhoso para mim excelente rapaz! Encontrei finalmente um sábio! Quanto ganha um professor da USP?!
– Eu ganho R$10 mil…
– Então você é da elite e é malvado?!
– Não… é que… olha… eu luto pelo povo e… eu quero só o bem deles!
– Mas você disse que o critério era esse…
– Eu sei, parece estranho, mas são nossos representantes que vão acabar com essas diferenças sociais!
– Estou me esforçando para compreender, quem são seus representantes?!
– São os políticos!
– Quanto ganha um político hoje, rapaz?
– Depende, deputado ganha cerca de R$39 mil por mês, um senador uns R$33 mil…
– Então eles são da elite também!
– São sim… mas são eles que vão fazer o bem para o povo!
– Mas você me disse que a elite só faz o mal, e que o critério era quem ganhasse mais de 2.300 por mês, seria mal, tanto você quanto seus representantes são da elite, devo supor que são maus, segundo suas próprias palavras… ou será de outra forma?!
– Estou desconfiando que você é um infiltrado velho! Como pode duvidar do que estou dizendo!?
– Eu estou tentando aprender, você disse que me ensinaria, mas afinal, você é um homem mau e seus representantes também são maus, ou este critério estará errado?
– Eu não sou mau! Lula é santo! Que espécie de perguntas são essas?!
– Chama-se lógica, rapaz, eu só estou examinando seu próprio critério… se o critério estiver certo, você e seus representantes são maus, se forem bons então o critério está errado… não será dessa forma?
– Está bem, talvez o critério esteja errado, pois eu sou um homem bom, e meus representantes também são bons, afinal estou lutando pela justiça, pelo bem, por algo bom!
– Muito bem rapaz! E qual a luta de vocês?
– Lutamos contra os maus… quer dizer, a elite…
– Nos critérios que você me colocou?!
– Sim!
– Ora, estão lutando contra si mesmos?!
– Não! Bem, talvez o critério esteja errado mesmo… não sei mais!
– Mas me diga, o que justiça?
– Justiça é que todos ganhem o mesmo salário! Para não haver desigualdade, sabe?
– Mesmo os que não trabalham?
– Não, só os que trabalham claro…
– Então já não são todos? Concorda?
– Bem, quis dizer todos que trabalham… os que não trabalham ganham bolsas, essas bolsas é para que não fiquem sem nada…
– Essas bolsas, são como um salário?
– Sim! Recebem uma vez por mês!
– E de onde sai o dinheiro dessas bolsas, rapaz?
– Impostos! As pessoas trabalham e pagam impostos, o estado redistribui a renda, e paga as bolsas.
– Então quem paga as bolsas é quem trabalha, e é justo que quem não trabalha receba salário por não trabalhar, e quem está trabalhando pague salário a quem não trabalha?
– Sócrates, você está me deixando confuso…
– Apenas me responda, a justiça consiste em pagar salário para quem não trabalha, é isso?!
– Não… é redistribuir a renda…
– Mas no final da sua redistribuição, isso é o que acontece, ou não?
– Sim é… mas… tudo parece estranho mas quando fizermos o comunismo, tudo vai ser diferente, tudo vai ser justo e ninguém vai ser miserável, não vai dar pra você entender agora… a elite é poderosa e controla tudo!
– Rapaz, até agora tudo que você me disse foi contraditório, não?
– Sim, foi! É que você precisa esperar o comunismo acontecer, aí sim tudo vai fazer sentido!
– Ora rapaz, então esse tal comunismo, deve ser maravilhoso, onde aconteceu?!
– Cuba, Coreia do Norte, Russia, Alemanha oriental…
– Então esses lugares devem ser o paraíso! Conte-me como são!?
– Olha, as coisas não vão tão bem, alguns lugares já abandonaram o comunismo, mas os outros permanecem em luta!
– Rapaz, que surpresa! Por que afinal abandonaram algo tão maravilhoso?!
– Não deu certo, mas continuamos tentando! É culpa do capitalismo!
– E os outros lugares?
– Cuba e Coreia do Norte continuam comunistas!
– Que maravilha! E como são estes lugares?! Estão bem? Todos são prósperos? Não existem mais classes?
– Pra falar a verdade, não estão bem não, Cuba e Coreia do Norte estão passando fome, mas isso é por culpa do capitalismo!
– Ora, mas um modelo tão bom, pelo qual vocês lutam, não faria apenas bem?
– É que os dirigentes não fizeram o comunismo como pensávamos, eles deturparam, fizeram outra coisa…
– Mas você me disse a pouco que eles eram bons…
– Eu disse mas… bem, nunca se sabe!
– Será que talvez vocês não estejam errados?
– Talvez, Sócrates…
– E por que esses países têm dirigentes?
– Eles têm poder militar, e muito capital…
– Ora, você me disse que não haveriam classes sociais…
– No comunismo existem apenas as classes política e proletariado!
– Então existem ainda classes, correto?!
– Não tenho como discordar agora…
– Meu rapaz, não me parece que você esteja lutando por algo bom, pois seus exemplos foram todos maus, e não me parecem confiáveis seus representantes como bons, pois sempre terminam por trair o povo, e mesmo seus critérios não me parecem bons, pois não se sustentam agora, nem nos exemplos que me forneceu.
– O senhor está me deixando sem respostas. Eu preciso estudar mais…
– Eu agradeço pela conversa, mas vou continuar procurando alguém realmente sábio, que possa me ensinar de sua sabedoria.
Um grupo de garotos se aproxima e cumprimenta o professor.
– Quem é este homem professor!?
– Um velho chamado Sócrates, que eu estava ensinando, mas agora estou um pouco confuso…
– Por que está confuso professor?!
– Ele discordou de algumas ideias minhas, e eu não consegui sustentá-las…
O Grupo de garotos grita:
– ATENÇÃO TODO MUNDO! ESSE É UM VELHO FASCISTA! RACISTA! MISÓGINO! SEXISTA! HOMOFÓBICO!
Após levar cuspidas e apanhar, Sócrates sai ferido e desaparece no vórtice temporal.
O professor da USP, prossegue em sua luta, mas cada vez que vê um velho calvo de barba comprida, começa a tremer de medo.

Fonte: https://www.zedudu.com.br/o-encontro-entre-o-filosofo-socrates-e-um-professor-da-usp/
Fonte: http://juniorbonfim.blogspot.com


Rui Barbosa:

"De tanto triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".


"Não pareço conservador, eu sou conservador. Conservador porque respeito aquilo que é clássico. Clássico não é o velho, clássico é aquilo que é eterno" - Enéas Carneiro